Desacelere

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Certo dia parei, respirei fundo três vezes, e fiz a breve pergunta que todos se fazem quando algo começa a sair dos trilhos: “o que está acontecendo?”. Não conseguia acompanhar o fluxo do tempo e, dentre tantos afazeres, das duas, uma: ou eu estava mais rápida que o tempo, ou ele estava passando rápido demais. Independente de qual assertiva tenha sido a verdadeira, descobri que sufocar minha alma de afazeres estava me fazendo perder as coisas mais simples e, por isso, mais importantes da vida.

Desde pequena, minha maior diversão é ter uma agenda cheia de compromissos. A sensação de ser adulta e ter afazeres sempre me cativou, então, quanto mais coisas pendentes e reuniões durante a semana, melhor. Isso me pareceu muito bom no início. Amava ouvir as pessoas dizerem que eu tinha um senso de maturidade para além do meu tempo por conseguir aguentar uma rotina tão flexível em que eu mal dormia. Só que, nesse meio tempo, descobri uma coisa: se você não para pra respirar no meio do caminho, o tempo inevitavelmente começa a cobrar.

Quando parei pra respirar, comecei a contabilizar todas as coisas importantes que havia perdido: o crescimento dos meus sobrinhos, os passarinhos fazendo ninhos na minha casa, a última conversa com meu avô, o jogo de domingo com meu pai, um dia ocioso para cuidar de mim mesma, os encontros de poesia com meus confrades da academia, os encontros com meus amigos de colégio e infância, o tempo em casa, as flores crescendo pelo caminho que faço todos os dias, de segunda à sexta, a mudança de temperatura, as pessoas caminhando tranquilamente pela praça. Tudo havia passado como um flash pelos meus olhos, enquanto eu estava, como um flash, passando pela vida.

Então, decidi desacelerar.

Parece esquisito querer correr demais entre pessoas que caminham devagar porque entendem que um segundo vale muito. A cada vez que fazia isso, reavivava o questionamento: “o que está acontecendo?” – e talvez você esteja fazendo a mesma coisa que eu fiz. Talvez esteja mesmo abraçando o mundo com os braços e as pernas, como se pudesse fazer tudo o que pretende, mas não. Você não consegue. Acho que nem o Superman conseguiria. Somos humanos, altamente limitados e extremamente ansiosos. Se você não quer ser arrebatado pelas doenças mentais do novo século, desacelere.

Isso mesmo. A moça que ama rotinas puxadas está te pedindo para desacelerar.

Largue uns compromissos, porque nem tudo é tão importante assim. Você denota às suas ações os valores que você quer que elas tenham, mas nem todas são exatamente o que você pensa que são. Faça uma lista de tudo aquilo que você faz hoje e veja o que é realmente importante. Se você for como eu, verá que só dois ou três compromissos tem o valor que denotamos pra ele. O resto se torna supérfluo automaticamente. Por isso, desmarque algumas reuniões, falte alguma aula durante a semana e vá fazer das coisas simples as mais importantes. Não procure estresse se você tem condições de acessar a calmaria.

Dinheiro não é tudo. Fama não é tudo. Reputação não é tudo. Seguidores nas redes sociais muito menos. Você não precisa de um nome, você precisa de uma vida bem vivida. Da vida bem vivida nasce o legado.

Essa vida acelerada é só mais um resultado (e ato falho) de uma vida guiada por nós mesmos, não por Deus. Ele nos lembra constantemente que está no controle, mas nós, humanóides, continuamos achando que não. Começamos a abraçar o mundo do jeito que dá pra termos a falsa garantia de que nada sairá dos trilhos, mas sairá. Quer dizer, já estão saindo, se você decide não colocar Deus a frente da sua carga de 220V.

Corremos o tempo todo pra termos o melhor emprego, a melhor casa, a melhor formação, as melhores oportunidades etc e tal, e nos esquecemos que temos O melhor que nos garante as melhores coisas aqui, ainda que sejam passageiras. Esquecemos que Ele cuida de nós de uma forma muito mais zelosa do que cuida dos lírios. Aliás… Se Ele cuida das plantas e garante que elas tenham as melhores coisas vindas da terra, por que Ele não cuidaria de você a ponto de te garantir o melhor?

Jesus nos fez para a calmaria. É certo que Ele nos levará para a tempestade e para a correria algumas vezes, mas nosso lugar não é numa rotina atribulada onde não há tempo pra respirar. Ele quer nos levar a um lugar tranquilo, mas enquanto estivermos nos alimentando de ansiedade para ter tudo em pouco tempo, jamais estaremos leves o suficiente para seguirmos na direção que Ele já apontou pra nós. A ordenança não é encher a agenda de compromissos, mas os nossos espaços internos com o melhor que Jesus nos oferece: Ele mesmo. E essa é uma ordenança sem prazo de validade.

Desacelere. Nem tudo precisa ser feito em trinta segundos, como se uma bomba atômica fosse explodir em nossas cabeças um milésimo de segundo depois. Acredite em mim: vale a pena. Abrir mão do seu frenesi pra ouvir o que Deus quer de você vale a pena. Te faz mais leve, mais confiante e até mais bonito. Quando tudo está nas mãos dEle, não há preocupação, só a certeza: vai acontecer. E se Ele disse que vai, acredite. Vai mesmo.

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